junho 26, 2003

Blogando

Saiu esta semana um artigo na revista Visão - Bem-vindo à blogosfera - que val a pena ser lido. Incidindo sobre esta "nova" realidade dos blogs, o que ele me introduz de novo é sobretudo o facto de expor o "Quem é Quem" nos blogs nacionais...

Eu tirei as minhas notas...

O Gato fedorento
Nascido pelas mãos de um grupo de amigos que dizem ter pouco em comum («a nível ideológico e até clubístico»)
(...) encontrou no humor o ponto de convergência das vontades. Um blogue sem tema, mas com um tom definido, que fala de tudo o que passa pela cabeça de quatro rapazes entre 26 e 30 anos, autores dos textos das Produções Fictícias. «Só tínhamos acesso à televisão através do Herman. Pela primeira vez, podemos escrever para um público razoavelmente vasto sem intermediários», afirma Ricardo Araújo Pereira, 29 anos.


Ponto Média
«O que me leva a alimentar o meu weblog é o mesmo que me leva a ser jornalista: vontade de comunicar com os outros e suspeita de que o que tenho para escrever interessa a alguém», explica António Granado que, numa decisão de novo milénio, inaugurou o seu blogue a 2 de Janeiro de 2001. No Ponto Média, contam-se «estórias sobre jornalismo e jornalistas» mas, de vez em quando, também se mete a colherada noutros temas. Ao sábado, um resumo do weblog de Granado sai da blogosfera e aterra nas páginas do Público.

Blog de esquerda
também jornalista José Mário Silva, 31 anos, um dos autores do Blog de Esquerda, o aspecto interessante deste meio é o facto de «poder escrever sobre assuntos que sentimos não ter legitimidade ou oportunidade para escrever no jornal»

Pastilhas
como referiu Miguel Esteves Cardoso numa das últimas crónicas no DNA: «Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto ? interactivo, instantâneo, espúrio (...) A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total.»
os blogues «envergonham a prosa paralisada que hoje passa por escrita ? e por português ? nos jornais».

Abrupto e o Estudos sobre o comunismo
até o eurodeputado Pacheco Pereira parece dar passos maiores no seu Abrupto, como nota Nelson de Matos, 58 anos, editor da Dom Quixote e também autor de um blogue, o Textos de Contracapa: «Nos textos de imprensa ou na TSF, ele defende as perspectivas de um partido, enquanto ali está mais solto. Até consegue criticar Marcelo Rebelo de Sousa.»

O autor de Abrupto (que recebeu mais de 50 mil visitas num mês e meio) conclui: «Às vezes espreme-se tudo num dia e fica pouca coisa, mas o que fica é bom e fica sempre alguma coisa.» O eurodeputado, que, como figura pública, acabou por mediatizar os blogues, realça ainda a «felicidade» dos bloguistas pela posse destes espaços ? «eles são a realização de um sonho que parecia inatingível para as gerações de estudantes com pretensões intelectuais do liceu e da universidade: ter uma revista literária, um jornal onde se pudesse escrever o que se quisesse».

«A explosão de blogues é um acontecimento importante na esfera pública portuguesa.» A opinião é de Pacheco Pereira, que além de Abrupto, criou o Estudos Sobre o Comunismo
«A imediaticidade do meio permite uma crítica ou uma reflexão sobre os eventos muito rápida. No caso da conferência de imprensa e da entrevista à RTP de Fátima Felgueiras, vários blogues levantaram no mesmo dia todas as objecções que, uma semana depois, emergiram na comunicação tradicional como se fossem grandes novidades. É verdade que esta imediaticidade também se presta à asneira, mas aí os blogues em nada se distinguem da comunicação tradicional.»
neste universo, as figuras mediáticas como Pacheco Pereira têm impacto, mas são uma minoria.

Textos de contracapa
Nelson de Matos, 58 anos, editor da Dom Quixote e também autor de um blogue
olha com muito interesse para os bloguistas anónimos. Habituado a muitas leituras, o editor da Dom Quixote diz que os blogues têm, às vezes, «uma surpreendente qualidade literária». «Essa é também uma razão porque ali estou», sublinha. «De repente, aparecem a escrever e a intervir pessoas, algumas delas bastante jovens, com qualidades de escrita e reflexão a que é bom estar atento. Pode acontecer que um dia eu decida desafiar um ou outro para um passo mais decisivo», promete.

Memória Inventada
«Se os editores forem espertos, ficam atentos ao que se está a passar na blogosfera», frisa José Mário Silva, dando um exemplo: «A Memória Inventada tem matéria mais do que suficiente para fazer um livro de contos e crónicas francamente melhor do que a maior parte das coisas que são hoje publicadas em Portugal.»

Aviz
Em suma, um outro espírito, reconhece Francisco José Viegas. O escritor e jornalista abriu o Aviz há pouco mais de uma semana. «Nos blogues falamos mais francamente.»
Francisco José Viegas não tem dúvidas: «Uma das grandes surpresas foi a revelação de gente que escreve muito bem e que sabe exactamente o que quer dizer, além de ter opiniões válidas.»

Coluna do Infame
lançado em Outubro de 2002 pelos críticos literários do DNA Pedro Mexia e Pedro Lomba e pelo colunista de O Independente João Pereira Coutinho, foi o primeiro a dar nas vistas, com os seus textos de inspiração direitista sobre artes, política e literatura. O suficiente para o editor-adjunto do DNA, José Mário Silva, amigo pessoal de Mexia, ter decidido criar um blogue, juntamente com o irmão, Manuel Nunes Silva, como resposta à Coluna Infame. Apareceu então o Blog de Esquerda, a 1 de Janeiro de 2003
Quando a Coluna Infame acabou, a 10 de Junho, na sequência de uma «troca de galhardetes» mais inflamada entre um dos seus elementos e um colaborador do Blog de Esquerda, o acontecimento mereceu referências na imprensa
Enquanto durou, a Coluna teve mais de cem mil visitas e inspirou o aparecimento de inúmeros blogues

Blog de Esquerda
o editor-adjunto do DNA, José Mário Silva, amigo pessoal de Mexia, ter decidido criar um blogue, juntamente com o irmão, Manuel Nunes Silva, como resposta à Coluna Infame. Apareceu então o Blog de Esquerda, a 1 de Janeiro de 2003. «Senti que eles tinham uma importância e uma qualidade de reflexão política muito boa e era preciso equilibrar. Entretanto, surgiram alguns blogues de esquerda bastante bons, mas ainda há três vezes mais blogues de direita do que de esquerda, por razões que ninguém sabe explicar. Eles até criaram uma associação, a União dos Blogues Livres [http://blogues-livres.mirrorz.com]», conta o jornalista.
Tal como a Coluna Infame, o Blog de Esquerda ? «sem outras ligações ao Bloco de Esquerda que não a simpatia pelo movimento», frisa José Mário ? surgiu com intuitos não exclusivamente políticos. Publica poesia, faz crítica literária e divulgação, mas foi o debate político entre os dois blogues que os catapultou para as páginas dos jornais

Mas Pedro Mexia e Pedro Lomba não resistiram muito tempo longe deste universo e já voltaram com o Dicionário do Diabo e o Flor de Obsessão, respectivamente

O Dicionário do Diabo
Quando Pedro Mexia regressou à blogosfera com Dicionário do Diabo, a comunidade de bloguistas vibrou de emoção. E lá voltou o crítico literário às noitadas à frente do computador, para afirmar as suas ideias e se deleitar com as polémicas da blogosfera. «Se arranjasse um patrocinador, tornava-me num profissional dos blogues. Não fazia mais nada.» Quem sabe o que o futuro vai reservar aos blogues?

Blog dos Marretas
Nuno Jerónimo, 31 anos, João Canavilhas, 37, e Jorge Bacelar, 43, trocam a pele de professores universitários pela de três personagens dos Marretas. Statler, Waldorf e Animal fazem diariamente as delícias de cerca de 600 cibernautas comentando os temas da actualidade com um toque de humor. Na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, ainda ninguém os interpelou por causa do Blogue dos Marretas, mas com a fama que têm é pouco provável que os professores de Sociologia (Nuno), de Comunicação (João) e de Design (Jorge) consigam passar incógnitos. Afinal, eles são os donos de um dos mais divertidos blogues portugueses. Amigos há cerca de 12 anos, os três «marretas» dividem-se na hora da ideologia: Nuno e João à direita, Jorge mais à esquerda.
«Escrever no blogue é estimulante e quase viciante», considera Nuno Jerónimo, um nome que nada diz ao comum dos portugueses mas que já tornou Statler num dos mais famosos e admirados bloguistas

Ponto e vírgula
«Acedi ao desafio de uma amiga de infância para fazer uma conversa gramatical a dois», conta André Freitas, 25 anos, um dos autores
(..)é um blogue animado que não deixa escapar os escândalos políticos nem o filme póstumo de João César Monteiro. Ele publicitário, ela galerista de arte, amigos com «vidas mais paralelas que convergentes», encontraram um espaço de conversa entre eles e com a restante «pontuação» que habita a blogosfera. «Pensei que só a minha mãe fosse ler o que eu escrevia. Não tinha noção da real dimensão dos blogues», confidencia André.

Bomba inteligente
tradutora Carla Hilário de Almeida, 32 anos
Apaixonada pela escrita, Carla não resistiu a inaugurar o seu blogue em Abril, durante a guerra no Iraque. A inspiração para o nome veio da conjuntura internacional. Ali criou um espaço de reflexão e de poesia (há quem lhe gabe as traduções de poemas gregos). «Na blogosfera conhecemos as pessoas pelo fim. Através da escrita, vemos os seus pensamentos e a forma como se exprimem antes do seu aspecto e tudo o resto», realça.

Publicado por Antonio em junho 26, 2003 07:48 PM
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