No Cafeina, Eduardo Sousa, chama a atenção para o facto de, na sua opinião,
"este nicho da internet nacional está ao rubro com a pressão exercida pela corporação político-jornalística para dominar e controlar este campo específico da internet, visto como o último bastião dos 'independentes', naquela que é talvez a última batalha por salvar a democracia na internet. Já se adivinha um futuro em que os sites 'do povo' estarão relegados à obscuridade da meia-dúzia de visitas/dia, e em que milhares lêem avidamente os McBlogs de jornalistas e políticos, transformados em novos Marcelos Rebelo de Sousa"
Confesso que isto me parece uma atitude demasiado radical perante aquilo que poderá ou não vir a ser o futuro dos blogs neste meio, e até um discurso demasiado de esquerda. No entanto, ele lança aquilo que me parece quase assemelhar-se a algo que poderá ser considerado como um novo "Código Deontológico" para meio, algo que merce uma reflexão....
Assim, o autor defende que "A resistência far-se-á pela competência" e deixa "21+1 pontos para um weblog melhor" que aqui transcrevo....
01. HIPERTEXTO. A utilização de links, colocados em palavras ou excertos relevantes do texto, apontando para páginas relacionadas, ou talvez para um artigo anterior arquivado, deve ser explorada e utilizada sempre que possível. Mesmo que a partilha de um link não seja o assunto principal de um artigo, isto é uma boa forma de abrir os horizontes.
02. INTERNET. Um bom weblogger, especialmente se tiver pretensões de reflectir sobre o meio que está a utilizar, deverá fazer algum trabalho de casa para compreender o funcionamento de um website e da própria internet.
03. DESIGN. A função precede a forma e o conteúdo é mais importante que a cosmética, mas é muito boa ideia fazer um esforço por aprender no mínimo a modificar os templates. A utilização de pré-fabricados, embora adequada para quem começa, leva ao aparecimento de uma imensidão de weblogs de aspecto idêntico o que dificulta a memorização e a identificação por parte dos leitores.
04. PÚBLICO. Um weblog é por defeito público, e o autor de escritos privados, sejam pessoais ou com destinatários específicos, deverá colocar um aviso no seu site e logicamente deverá recusar qualquer tipo de promoção. Tendo um site público, o autor nunca deverá perder a noção de que está a escrever para desconhecidos. Pode imaginar um público específico, mas deverá encarar o seu weblog como uma fanzine, não como um diário.
05. MEMÓRIA. A menos que considere o seu weblog uma performance limitada no tempo, descartando assim os arquivos, um autor deve respeitar o registo de artigos passados. Poderá mudar o nome, mas nunca deverá descartar um blog para começar outro a menos que o bom-senso o implique (por exemplo, mudanças de língua ou de tema específico). Passados dois anos de escrita os artigos antigos são um registo muito valioso, passados dez talvez não tenham preço.
06. FIDELIDADE. Um autor não deverá alterar os seus artigos, sejam correntes ou passados, a não ser para corrigir eventuais erros de ortografia ou na transcrição de um URL. Assim deverá pensar duas vezes no que vai escrever, e caso cometa um erro deverá publicar uma errata - nunca deverá suprimir o artigo.
07. PALHA. A 'palha' impressa chateia. 'Palha' no ecrã faz doer os olhos.
08. AMIGOS. Um blog não é uma novela que se apanha a meio. Referindo-se a terceiros, o autor deve fornecer alguma informação sobre a pessoa, seja colocando um link para o seu site, ou, quando não é possível, explicando em um ou dois adjectivos a sua relação com a pessoa (ex. "o meu amigo Henrique" ou "a Catarina, uma colega minha"). Se o autor desejar preservar a identidade dos visados, deverá suprimir o nome, ou em alternativa utilizar nomes fictícios. A utilização de iniciais, vista em alguma literatura, deve ser evitada por estas serem de difícil memorização.
09. ACONTECIMENTOS. Um bom weblogger deverá ter a permissão de terceiros antes de contar episódios passados com estes, a menos que estes sejam inócuos ou a identidade das pessoas seja bem preservada.
10. GENEROSIDADE. É melhor dar que receber, e num weblog não é excepção. Links ou referências a outras pessoas ou sites deverão ser feitos sem esperar nada em troca. A blogroll - a lista de links lateral - não deve ser interesseira. E um autor digno nunca deverá enviar um e-mail ou um comentário para um desconhecido a pedir um link. Quem é referido num weblog cedo o descobre, não há necessidade de forçar.
11. BLOGROLL. A blogroll deverá ser eclética e não apenas confinada aos amigos e conhecidos de um weblogger. Deverá ser fruto do mérito, uma lista dos melhores weblogs de acordo com o autor. Para quem visita, a lista de links deverá ser uma garantia de bons weblogs.
12. WEBSITE. Nunca esquecer que um weblog é um website, e assim um autor que faça a programação e/ou layout do site deverá cumprir as regras básicas do webdesign.
13. DIÁLOGO. Um weblog não deve ser um interminável e autoritário monólogo, mas também não deve ser apenas um dos interlocutores de intermináveis diálogos inter-weblogs que provocam desnorte no visitante. Um weblog comunitário ou com múltiplos autores é uma solução mais adequada, e aplausos mútuos constantes são de evitar em qualquer caso. O diálogo, a ser travado, deverá ser directamente com os visitantes com o recurso a sistemas de feedback.
14. HUMILDADE. Auto-crítica e humildade são coisas boas. Dada parte da natureza e do folclore da internet, esta nunca será o meio ideal para alguém manifestar a sua própria grandeza por palavras.
15. SINCERIDADE. Um weblogger deverá preservar a sinceridade e exprimir o que realmente sente e pensa sobre os assuntos. Se não o conseguir neste espaço de liberdade e possível anonimato, é pouco provável que o consiga noutras situações. Não deverá forçar opiniões políticamente correctas.
16. VERBORREIA. Nenhum weblogger é pago a metro, portanto deverá ponderar se aquilo que pensou escrever realmente tem interesse para o seu público. A 'bloguerreia' é algo a evitar.
17. TEMPO. O tempo do público é um recurso limitado e não deve ser abusado por um autor. Fazer alguém perder uma pequena parte da sua vida com banalidades é garantia de que esse alguém não volta.
18. COMPETIÇÃO. Os concursos fazem mal ao ego da maioria que os perde. Além disto, os processos que levam um weblogger a destacar-se são muitas vezes dúbios e irão ser contestados e alvo inevitável das más-línguas.
19. CÉREBRO. Um weblog deverá ser um hobby construtivo, e o autor deverá tirar dele partido para se enriquecer culturalmente, para se auto-descobrir e para se consciencializar para certas questões. Assim, um weblog deverá visar o cérebro e não o umbigo do autor.
20. OPINIÃO. Certos tipos de referências, como a um filme, a uma música ou a um livro pedem a opinião pessoal do weblogger, nem que seja fornecida por um adjectivo. O acto de simplesmente 'largar nomes' é muito facilmente conotado com uma ignorância escamoteada.
21. AMOR. Afinal um weblog é apenas um hobby. Mas deverá ser um hobby trabalhado com calma e amor, e não uma paixão momentânea movida por um desejo de estar na moda.
00. REGRAS. Na realidade não existem regras. Todos os conselhos expressos acima poderão ser contrariados desde que através de uma forte fundamentação.
Confesso, que não sinto grande afinidade com a existência de alguma espécie de "código" num meio que se quer livre e plural, no entanto, pareceu-me importante transcrevê-lo para aqui de modo a poder, de vez enquando, dar-lhe uma vista de olhos e lembrar-me de algumas coisas com as quais concordo inteiramente....
Eu vou tirar daqui as minhas notas !
Viva!
Já tive a oportunidade de manifestar a minha opinião sobre esta posição em diversas frentes, encontrando aqui mais uma que coincide com a minha visão das coisas e da realidade. Acho que o autor tem um raciocinio demasiado radical e muito centralista (em si, um certo egocentrismo, ou talvez não).
Não levo para os campos da deontologia no mundo do weblog. Na minha formação em Saúde, tive formação académica de etica e deontologia, sei dar valor a ela e também o que a mesma significa, dando-lhe grande significado e importancia. Na minha opinião, o artigo poderá ser tudo, menos um código deontológico.
Os meus melhores cumprimentos,
Gonçalo Trafaria
Talvez seja importante que se discuta isso ou não, mas penso que cada um de nós, blogueiros, deve reflectir nessas questões. Pensar é importante, e de certeza que isso se reflectirá nas práticas. Já discutir... por discutir... Vai a marportuguez.blogspot.com.br vê um dos últimos post (ou entradas) e dá um pulo ao Notícias na blogosfera que lá está linkado. Para quem se interesse pelo desenvolvimento da blogosfera terá aí sobre que pensar.
BB (bloga bem)
Não pretendo com este blog acatar algum tipo de código mas apenas ir tomando algumas notas do que julgo poder vir a ser de hoje para a frente, com alguma mediatização e crescente impacto dos blogs, uma tendência emergente que será procurar de algum modo establecer linhas, "códigos", ou algumas regras que, na mera opinião de cada um, devem orientar este novo modo de estar...
Creio que haverá sempre a tendencia, na discussão acerca deste universo dos blogs, de procurar tomar partido por algo que é comum nas sociedades dos dias de hoje - establecer padrões, regas, normas, "códigos", éticas de comportamento.... - e que procura alcançar, de um certo modo, um certo falso "status quo" que permite a alguns evidenciarem-se...
Quanto a isto mantenho a minha total oposição crítica !
No entanto, existem alguns pontos acerca dos quais eu concordo com o autor do "21+1", numa visão meramente pessoal eu revejo-me em alguns deles e mantenho uma opinião formada acerca daquilo que entendo que deve ser um blog, pelo menos o meu...
Obrigado pelos vossos comentários !