julho 16, 2003

Agricultura(s)

Leio um artigo publicado no último número do New York Times, intitulado:
"Is Organic Food Provably Better?"

Este levanta o véu sobre a tensão existente entre dois grandes grupos: aqueles que defendem um modo de produção agrícola convencional (habitualmente mais rentável se não forem tidos em consideração os seus custos ambientais) e aqueles que defendem o modo de produção biológico (com um maior respeito sobre o ambiente de entre o cumprimento obrigatório de um conjunto de normas)...

Aqui os primeiros procuram descredibilizar os estudos efectuados em torno da qualidade dos alimentos biológicos, suportando-se na enorme discrepância observada entre os resultados apontados por cada estudo, e os segundos baseiam-se nos mesmos para defender a qualidade dos produtos finais obtidos no respeito pelo ambiente e pelo cumprimento de normas estabelecidas.

In 2001, the Soil Association of England, which sets organic standards, asked Shane Heaton, a nutritionist, to analyze available studies on nutrient differences between organically and conventionally grown food.
He looked at 99 studies and discarded 70 because, he said, they examined growers who did not use certified organic practices, did not make relevant comparisons or were of insufficient duration.
He found that in 14 studies of minerals, 7 showed a "trend toward mineral contents" in organic foods, while 6 showed inconclusive or inconsistent results and 1 showed a higher mineral content for nonorganics. For vitamin C, 7 of 13 studies showed significantly higher levels in organics; they ranged from 6 percent to 100 percent. Six of the studies showed inconsistent or insignificant differences.

Podemos ver que no que diz respeito à riqueza nutritiva, 50% dos estudos mostravam resultados favoráveis aos métodos de produção biológica enquanto a outra metade se mostrava inconclusiva. No que diz respeito à riqueza em Vitamina C, podemos ver que embora uma ligeira maioria tenha demonstrado que o método de produção biológica era mais favorável o aumento traduzido pela sua introdução poderia variar entre os 6 e os 100% sendo por isso tb um pouco inconclusivo quanto aos seus resultados...

Mas o mesmo artigo deixa mais pistas, para esta discussão...

A study in the January 2003 Journal of Agricultural and Food Chemistry found 52 percent more ascorbic acid, or vitamin C, in frozen organic corn than in conventional corn, and 67 percent more in corn raised by sustainable methods ? a combination of organic and conventional farming.

[i.e., este foi superior (+15%) numa prática associada àquilo que é a nossa "produção integrada"]

A three-year study in Italy, reported in the August 2002 issue of the same journal, found higher levels of polyphenols in organic peaches and pears, and about 8 percent more ascorbic acid in organic peaches.

And a study in the February 2002 European Journal of Nutrition found more salicylic acid in organic vegetable soup than in nonorganic soup. Salicylic acid is responsible for the anti-inflammatory properties of aspirin, and bolsters the immune system

E a propósito da questão da riqueza em compostos polifenólicos :

while scientists emphasize the importance of polyphenols and other antioxidants, particularly because they might help fight cancer, Mr. Avery said: "No one has a clue how much phenolics anyone needs to consume. Anyone who claims nutritional benefits from higher or lower phenolics doesn't understand."

Por sua vez em relação ao teor em Vitamina C:
The higher levels of vitamin C, Mr. Reganold said, are "biologically significant."

No final, enquanto alguns investigadores defendem que os resultados obtidos "are consistent with studies coming out now on nutrients, phytochemicals and pesticides." outros chegam à conclusão que because there is so much variation in the soil, the amount of sun and rainfall, "It is difficult to compare findings of different studies."

Terminando com as duas faces da mesma moeda voltadas de costas entre si:

Organic foods, Mr. Avery said, "are clearly no safer, no more nutritious, no more healthful ? there are zero advantages for consumers."

Dr. Nestle said, "I don't think there is any question that as more research is done, it is going to become increasingly apparent that organic food is healthier."

Pessoalmente creio que, como ficou demonstrado, os resultados não são sempre muito conclusivos e ainda não parecem haver padrões muito bem definidos para poder avaliar se as diferenças encontradas podem ou não ter um impacto claro em termos biológicos no organismo do consumidor. No entanto, a minha formação diz-me que não podemos ser demasiado intransigentes na defesa de uma ou de outra prática de agricultura, sou apologista de uma prática de agricultura sustentável, já muito afastada daquele tipo de agricultura que surge no pós-guerra e com a revolução industrial onde a única regra de ouro era, simplesmente, produzir ao máximo de modo a assegurar a alimentação de milhões de habitantes e a restablecer os níveis de produtos alimentares disponíveis para a população...
Hoje os métodos que estão a conquistar as mentalidades dos empresários agrícolas e dos técnicos e a ser postos em prática nas explorações são aqueles conhecidos por "Protecção Integrada" e, mais recentemente, por "Produção Integrada" que dão prioridade à produção de alimentos de elevada qualidade através da utilização de métodos de produção com um menor impacto eco-toxicológico, minimizando o uso de agro-químicos com efeitos secundários de modo a salvaguardar o ambiente e a saúde humana. Estes surgem cada vez mais por pressão dos consumidores e são transmitidos aos produtores através das exigências postas no seu cumprimento pelas grandes superfícies comerciais (importantes clientes) nos seus contratos de fornecimento.
Creio que deverá manter-se o incentivo ao estudo e investigação em torno da qualidade alimentar e em relação ao impacto que as diferentes técnicas e meios de produção podem ter nessa mesma noção. Certo de que os consumidores estarão cada vez mais atentos a esta realidade e os mass-media cada vez mais concentrados em procurar colocar na praça pública qualquer incumprimento nas suas práticas ou novas descobertas quanto ao impacto que algumas párticas podem ter na qualidade.

No entanto, os consumidores têm que estar atentos ao facto de que tudo tem o seu preço e não podemos ser utópicos... a agricultura é uma actividade económica e como tal tem por objectivo maximizar o seu lucro de modo a poder assegurar uma qualidade de vida aos empresários, famílias e trabalhadores de que dela dependem e a ela tem direito. Não podemos procurar impor aos agricultores novas práticas agrícolas que obrigam a um know-how e/ou a um custo de produção mais elevado sem aceitar as contrapartidas que podem surgir através do preço a pagar pelos bens consumidos ou pela implementação de políticas que assegurem, no mínimo, uma equidade de direitos em relação àqueles que adoptem outras práticas, nomeadamente aquele que diz respeito ao rendimento dos agricultores.
As medidas tomadas na nova PAC e a crescente adesão dos consumidores aos produtos obtidos através de novos meios de produção são bons indicadores que estimulam ainda mais agricultores a alterarem as suas práticas, mas não bastam, estou certo que é necessaria uma maior promoção/ divulgação destas técnicas junto dos produtores e consumidores, o seu alargamento e consolidação a novas culturas, a sua fiscalização e acima de tudo uma maior informação dos consumidores acerca dos benefícios que pode trazer a sua compra e o seu consumo de modo a que eles possam assim estar perfeitamente conscientes do valor acrescentado que acarreta o consumo destes bens .
No final, temos todos que ter consciencia que a agricultura é um sector bem vivo da actividade empresarial em portugal, tem sofrido muitas alterações ao longo das últimas décadas e tem-se adaptado com maior ou menor dificuldade aos desafios e exigencias que futuro lhe vai colocando a cada momento e tem sabido aceitá-los e ultrapassá-los, apesar das grandes dificuldades sócio-estruturais que a afectam, e que não existem uma mas várias "agriculturas" que podem ser entendidas como diferentes técnicas ou meios de produção, diferentes culturas ou diferentes enquadramentos locais ou regionais...

P.S: A propósito irá decorrer de 18 a 20 de Julho, no Mercado Ferreira Borges, a "V Feira de Agricultura Biológica e Qualidade de Vida" no Porto ... espero ir lá dar um pulo para ir tomar de novo o pulso à crecente vitalidade deste sector na nossa agricultura.

É curioso como a leitura de um artigo num jornal e um folha em branco (que o weblog nos oferece) me pode despertar tanto para escrever e ainda deixar tanto por dizer....

Publicado por Antonio em julho 16, 2003 05:16 PM
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