A ciência parte dos factos, respeita-os até certo ponto e sempre retorna a eles. (...) procura descobrir os factos tais como são, independentemente do seu valor emocional ou comercial: não poetiza os factos. Em todos os campos, a ciência começa por estabelecer os factos: isto requer curiosidade impessoal, desconfiança pela opinião prevalecente e sensibilidade à novidade. (...)
Assim o desrespeito pelos factos, conforme anteriormente citado, surge como o resultado de novas aprendizagens ou de uma análise mais aprofundada dos assuntos que pode chegar no final à conclusão que os factos até então considerados verosímeis como tal não o são, havendo por isso a necessidade de os refutar para colocar novos factos no seu devido lugar (até prova em contrário, de novo!)
Mas por vezes a descoberta de novos factos passa pela necessidade de ter um elevado poder de abstração daqueles que fazem até então parte do senso comum de modo a poder descortinar novos factos :
O conhecimento científico transcende os factos: põe de lado os factos, produz factos novos e explica-os
um pouco em oposição aquilo que é o senso-comum que parte dos factos e atém-se a eles: amíude, limita-se ao facto isolado, sem ir muito longe no trabalho de o correlacionar com outros, ou de o explicar
Assim,
a investigação científica não se limita aos factos observados: os cientistas exprimem a realidade a fim de ir mais além das aparências; recusam o grosso dos factos percebidos, por serem um montão de acidentes, seleccionam os que julgam relevantes, controlam factos e, se possível, reproduzem-nos
No final,
o conhecimento científico racionaliza a experiência, em vez de se limitar a descrevê-la; a ciência dá conta dos factos, não os inventariando, mas explicando-os por meio de hipóteses (em particular, enunciados e leis) e sistemas de hipóteses (teorias).
Os cientistas conjecturam o que há por detrás dos factos observados e, em seguida, inventam conceitos (como os de átomo, campo, classe social, ou tendência histórica), que carecem de correlato empírico, isto é, que não correspondem a perceptos, ainda que presumivelmente se referem a coisas, qualidades ou relações existentes objectivamente. (...)
Creio que no final é necessário também ter os pés bem assentes na terra sem nunca perdermos de vista o nosso horizonte, i.e. sem deixarmos de saber muito bem a que é que nos propomos e quais são os objectivos que temos em mente apesar de mesmo estes estarem em constante mutação, como em qualquer outro modo de vida...
Creio ainda que a precepção de novos factos e a refutação dos factos até então existentes passa igualmente pelo respeito daquilo que faz até então parte do senso comum e pela necessidade de compreensão dos presupostos que levaram à sua criação e do contexto em que estes foram acolhidos, sem nunca perder a responsabilidade e o dever de investigar sobre eles de um modo livre.
M. BUNGE La ciencia, su método in Um outro olhar sobre o mundo, p. 215-217
Publicado por Antonio em julho 29, 2003 09:59 PMBoas leituras António... :)
Afixado por: Socio[B]logue em julho 31, 2003 05:42 PM