Lido no Silencio :
Olho para esta folha branca colocada sobre a mesa; apercebo-me da sua forma, da sua cor, da sua posição. Estas diferentes qualidades têm características comuns: antes de mais, elas entregam-se ao meu olhar como existências que eu posso tão-somente constatar e cujo ser em nada depende do meu capricho. São para mim, não são eu. Mas outrem também não são, isto é, não dependem de qualquer espontaneidade, da minha nem da de qualquer outra consciência. Estão presentes e são ao mesmo tempo inertes. Esta inércia do conteúdo sensível, tantas vezes descrita, é a existência em si. De nada serve discutir se esta folha se reduz a um conjunto de representações, ou se é ou deve ser mais do que isso. Certo é que o branco por mim constatado não pode produzi-lo a minha espontaneidade. Esta forma inerte, que fica aquém de todas as espontaneidades conscientes, que tem de ser por nós observada, aprendida aos poucos, é o que se chama uma coisa. Em caso algum a minha consciência poderia ser uma coisa, pois o seu modo de ser em si é precisamente um ser para si. Existir, para ela, é ter consciência da sua existência. Surge como espontaneidade pura face ao mundo das coisas que é pura inércia. Podemos, pois, desde a origem, supor dois tipos de existência: é, de facto, enquanto inertes, que as coisas escapam ao domínio da consciência; é a sua inércia que as salvaguarda e lhes conserva a autonomia...
in A Imaginação, Jean-Paul Sartre
Efectivamente não estou perante mais nada que não seja para mim uma folha em branco .... (onde por vezes me surpreendo)
:)
Afixado por: dolphin.s em setembro 1, 2003 11:41 PM