Borges no Inferno
José Luis Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras !? Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca (...)
A plantação prolongava-se por toda a eternidade. Uma dúvida começou a atormentá-lo: talvez estivesse, afinal, não no paraíso mas no inferno. (...)
Borges lamentava a ausencia de livros.
Horrorizado compreendeu o equivoco. Deus confundira-o com outro escritor latino-americano. Aquele paraíso fora construído, só podia ter sido construído, a pensar em Gabriel Garcia Marquez.(...)
José Luis Borges sentou-se na terra húmida. Levantou o braço, colheu uma banana, descascou-a e comeu-a. Pensou em Gabriel Garcia Marquez e voltou a experimentar o intolerável sentimento de inveja (...)
José Luis Borges descascou outra banana e nesse momento um sorriso - ou algo como um sorriso - iluminou-lhe o rosto. Começava a adivinhar naquele equívoco cruel um inesperado sentido: sendo certo que o paraíso do outro era agora o inferno dele, então o paraíso dele haveria de ser, certamente o inferno do outro.
Borges terminou de descascar a banana e comeu-a. Era boa. Era um bom inferno, aquele.
In A substância do amor e outras crónicas, José Eduardo Agualusa
Moral da estória.... inferno nunca à um só.
AH! à ou há?