"Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.
Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro?
Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes (...) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca, encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz, como não pensar é a parte melhor de ser rico.
Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha de mais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida e do irreal do sonho como do sentir a vida irreal.
Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos."
Fernando Pessoa, in 'O Rio da Posse' [@]
"Sendo o 'Exterior' à imagem do 'Interior' a vida será uma obra de arte. As obras de arte do passado serão tidas por curiosidade de arcaicas. Algumas serão conhecidas e estudadas."
Profecia de Abdul Varetti, escritor falhado
Alvaro Lapa in Colecção de Serralves
(...)
You're beautiful. You're beautiful.
You're beautiful, it's true.
I saw you face in a crowded place,
And I don't know what to do,
'Cause I'll never be with you.
You're beautiful. You're beautiful.
You're beautiful, it's true.
There must be an angel with a smile on her face,
When she thought up that I should be with you.
But it's time to face the truth,
I will never be with you.
James Blunt - You're Beautiful
(…) “Pois o que eu quero é dormir!....”
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
“Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e ódio o que leva o homem a escolher o ódio?”
“Não sei”, disse. “Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe o livre-arbítrio”
(…)
“O livre arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre-arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor…”
(…)
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passavam, apressados, diante d’ A Brasileira, estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
Livre Arbítrio, José Eduardo Agualusa
Eu, tímido, me confesso...
"A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria, uma dimensão que se abre para a solidão. É também um sofrimento inseparável, como se tivéssemos duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e contraísse perante a vida. Entre as estruturas do homem, esta qualidade ou este defeito são parte da liga que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser."
Pablo Neruda (1904-1973) in Confesso que Vivi | DN (col. Prémio Nobel)
O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura
Aldous Huxley in Contraponto